O futuro do plástico (parte I): os limites da reciclagem

  • O futuro do plástico (parte I): os limites da reciclagem

Quando começou a ser usado em larga escala no início do   século XX (1), o plástico parecia uma solução ideal para   diversos problemas. Barato, resistente e maleável poderia ser   utilizado para as mais diversas finalidades, desde   equipamento militar até utensílios de cozinha e itens de   beleza.

Acontece que nessa perspectiva não estava incluído um problema fundamental, que é o fato de que esse resíduo não é biodegradável, permanecendo na natureza durante pelo menos 450 anos, segundo dados da Fiocruz (2). Isso significa, basicamente, que todo o plástico já produzido até hoje pela humanidade ainda se encontra presente no planeta. Nas águas, no solo, no alimento e até mesmo dentro da gente, na forma dos chamados microplásticos.

Nos anos 60 as campanhas de reciclagem começaram a ser divulgadas como uma solução ideal. As grandes fábricas produzem plástico e colocam em quase tudo, ao consumidor bastaria destinar para reciclagem que tudo ficaria bem. Na prática essas campanhas se revelaram uma verdadeira falácia, pois até os dias de hoje o índice de reciclagem do plástico é baixíssimo. A propaganda nos estimula a reciclar para que possamos normalizar a quantidade imensa de plástico que usamos no dia a dia, no entanto a reciclagem desse resíduo não acontece de forma apropriada.

O Brasil é atualmente o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo, com uma média 11,3 milhões de toneladas descartadas anualmente. Do total de resíduo plástico produzido, apenas 1,28% é reciclado. 2,4 milhões de toneladas de plásticos estão sendo descartadas de forma irregular e 7,7 milhões de toneladas acabam em aterros sanitários, agravando ainda mais a poluição plástica (3).

Tudo isso faz do problema do lixo plástico um dos maiores desafios para a humanidade no século XXI. Nos próximos textos vamos abordar algumas ideias que nos permitem pensar em possíveis caminhos de ação. Já de antemão adiantamos que não existe solução pronta, muito menos fácil. No entanto, consideramos que promover reflexões sobre esse assunto seja algo de extrema relevância, pois é somente nos importando com a questão que poderemos vislumbrar possibilidades de agência, tanto a nível individual, como coletivo.

O consumo consciente e responsabilização do indivíduo.

Seguindo uma estratégia que vem sendo utilizada desde as primeiras campanhas de reciclagem, as ações de propaganda das grandes empresas e corporações, mesmo quando aderem a ideia de sustentabilidade, continuam depositando em ações individuais a responsabilidade pela transformação. Segundo demonstra um excelente texto de Derrick Jensen chamado “Esqueça os banhos curtos”, essa tendência do capitalismo se expressa nas ideias do político norte-americano Al Gore apresentadas no filme ‘Verdade Inconveniente’ (4).

 Apesar de ter sido importante para alertar a comunidade mundial a respeito dos      problemas relativos à crise climática relacionada ao excesso de emissões de carbono, o  documentário apresentou somente soluções relacionadas ao consumo pessoal, como troca de lâmpadas, usar menos o carro ou calibrar os pneus. Deixa assim de responsabilizar os  principais causadores do problema, que são as grandes corporações, com sua avidez pelo lucro e os governos, voltados para o mito do crescimento econômico irrestrito.

  Como demonstra Jensen, desconstruindo o argumento da viabilidade do impacto da ação individual,

 ‘mesmo que cada pessoa nos Estados Unidos fizesse tudo que o filme sugere, as emissões de carbono nos EUA teriam uma redução de apenas 22%, sendo que o consenso científico é que  as emissões devem ser reduzidas, em todo o mundo, pelo menos em 75%.Ou seja, para que seja possível causar um impacto real na emissão de carbono amenizando os efeitos da crise  climática, a mudança de hábito da população é insuficiente.’ (4)

     Na questão da emissão de resíduos plásticos essa situação se repete. Tendo em vista que os maiores responsáveis pela poluição são as grandes empresas e corporações, as mudanças individuais nos hábitos de consumo não dão conta da transformação de que o planeta precisa. Em certa medida o estilo de vida eco, em sua versão superficial, serve somente para deixar tranquila a consciência (iludida) daqueles que têm condições econômicas para arcar com os custos (altos) do chamado consumo consciente.

Referências:

(1) https://uniplastico.wordpress.com/2020/05/17/a-historia-do-plastico/ 

(2) http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/reciclagem.htm 

(3) https://www.ecodebate.com.br/2020/12/03/producao-global-de-plastico-pode-crescer-50-ate-2025/ 

(4) https://www.blogs.unicamp.br/ecodesenvolvimento/2010/05/06/esquea_os_banhos_curtos/




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