O ecofeminismo e a construção de um futuro possível

  • O ecofeminismo e a construção de um futuro possível

Desde os anos 70, pesquisadoras da área das Ciências Humanas têm demonstrado como a ecologia está diretamente ligada ao feminismo. Essa aproximação se deve à constatação de que o modelo destrutivo e dominador da sociedade atual, que muitas vezes age como se os chamados recursos naturais fossem ilimitados e como se o ser humano não tivesse responsabilidade de cuidar do planeta, é uma consequência da dominação masculina, especialmente de valores patriarcais, no que se refere aos rumos do comércio, da produção e do consumo.

A presença de valores que privilegiam aspectos culturalmente tratados como femininos, como o cuidado, a atenção e a importância das próximas gerações oferece outro olhar sobre a vida, que aponta para a necessidade de um futuro além da autodestruição implicada no modelo atualmente vigente – de acumulação irrestrita e uso displicente dos bens comuns a todos, como água, o ar e a terra.

Aos homens o mundo e às mulheres a casa?

No patriarcado, como aponta a antropóloga Sherry Ortner (1972), existe um esforço de tentar relacionar homens à cultura e mulheres à natureza. Dessa perspectiva, os homens - associados ao pólo da cultura - seriam a força criativas da sociedade, responsáveis pela vida pública, pela produtividade, pelas artes e pela ciência; enquanto que as mulheres - associadas à natureza - seriam como forças a serem controladas e domesticadas, destinadas à reprodução das pessoas, da casa e do lar, e não à produção do mundo.

Nessa configuração, segundo a antropóloga, as mulheres se encontram subordinadas aos homens, da mesma forma que a cultura subordina a natureza, transformando-a por meio da tecnologia. São justamente essas correlações que o ecofeminismo se propõe a desconstruir, em sua busca por apontar um futuro viável para a humanidade.

É possível colocar a natureza em um lugar que não aquele da exploração. Mas, mais do que isso, é necessário ouvir as mulheres, relacioná-las também à dimensão da vida pública, na construção das possibilidades para uma cultura do futuro, ecológica, igualitária, consciente e descolonizada.

O ecofeminismo – a voz das mulheres nas ruas e florestas

O termo ecofeminismo apareceu pela primeira vez no livro “Le feminisme ou la Mort” (O feminismo ou a morte), escrito em 1974 pela autora francesa Françoise d`Eaubonne. Nesse livro a autora define essa ideia como “a capacidade das mulheres, como impulsionadoras de uma revolução ecológica, de ocasionar e desenvolver uma nova estrutura relacional de gênero entre os sexos, bem como entre a humanidade e o meio ambiente”.

Segundo Flores e Trevisan (2015), apesar da diversidade o ecofeminismo tem enquanto princípios gerais: (a) descentralização do poder, não hierarquização e democracia direta; (b) apoio ao comércio justo e a uma economia ecológica e solidária como modelo de desenvolvimento; (c) insistência em tecnologia de baixo impacto e não agressiva ao meio ambiente; (d) ênfase no caráter local das ações para garantir a segurança alimentar e a moradia; (e) relações equilibradas entre sexos, classes e raças, e com o meio ambiente.

Cabe dizer que a correlação entre a luta das mulheres e seus direitos com o cuidado consciente do planeta é também uma consequência da luta prática e diária de diversos povos contra o colonialismo e a dominação dos territórios tradicionais.

Abraçando as árvores do Himalaya

Como nos lembra Yayo Herrero (2007), na década de 70 ficou conhecida uma movimentação protagonizada por mulheres na comunidade indiana Chipko, localizada próxima aos Himalaias. Como forma de protesto contra a derrubada de um bosque elas se abraçaram às árvores para impedir sua destruição.

A maioria dos homens do povoado queria aceitar a oferta de compra que havia sido feita por uma indústria madeireira, tendo em vista a possibilidade de obtenção de dinheiro imediato. As mulheres, porém, sabiam que a defesa dos bosques comunais era imprescindível para resistir às multinacionais estrangeiras que ameaçavam seus modos de viver. Para elas, como demonstra Herrero, “o bosque era muito mais que alguns milhares de metros cúbicos de madeira. O bosque era a lenha para se esquentar e cozinhar, oferecia o alimento para os seus animais, o material para ‘las camas del ganado’ e também a sua sombra”.

Por esses motivos, o abraço das mulheres Chipko às árvores foi o próprio abraço à vida. Esse movimento se tornou um dos exemplos mais conhecidos do ecofeminismo, um diálogo entre a sustentabilidade ecológica com a visão, a prática e o relato que as mulheres fazem sobre a vida, um encontro, que como afirmou Yayo Herrero, ‘liga intimamente a proteção da natureza e a subsistência das comunidades humanas’.

Conclusão

A partir de exemplos como esse podemos afirmar que, ao contrário do que às vezes se imagina, o ecofeminismo não luta apenas pelas mulheres, mas sim por novo mundo e por novas relações, nas quais homens, mulheres e as todas as diferentes formas de vida que compartilham esse nosso pequeno planeta azul sejam igualmente respeitadas, com direitos iguais e um futuro digno.

Referências:
D’EAUBONNE, Françoise. Le féminisme ou la mort. Paris: Pierre Horay, 1974.
FLORES, B. e TREVISAN, F. Ecofeminismo e comunidade sustentável. Estudo Feministas, Florianópolis, 23 (1), 2015. disponível em <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/37461/28755>
HERRERO, Yayo. Ecofeminismo: una propuesta de transformación para un mundo que agoniza. 2007. Disponível em:< http://www.rebelion.org/noticia.php?id=47899 >.
ORTNER, Sherry. Is female to nature as male is to culture?. Feminist Studies Vol. 1, No. 2 (Autumn, 1972), pp. 5-31. Disponível em <https://www.jstor.org/stable/3177638>

Ilustração:
Hariná de Moura Marques | @sementesselvagens

Comentários

Gostou? Classifique!

Escrever comentário

Não use tags HTML!

Newsletter

×
Cadastre-se para receber nossa newsletter e receba em seu e-mail promoções, cupons de desconto exclusivos, notícias sobre ecologia e novidades!

* E-mail:

* Nome: